Igreja, comunidade de justiça e Misericórdia

Neste breve artigo trato das questões histórico-culturais relacionadas ao estabelecimento das “cidades de refúgio”, sobre as fundamentações teológicas para as referidas cidades, e  a aplicação prática para a vida cristã.

As questões histórico-culturais

o Dicionário J. Davis nos narra que em “Israel havia seis cidades levíticas destinada a servir de refúgio àqueles que acidentalmente cometiam homicídio, a fim de escaparem à vingança do sangue derramado, Nm. 35:9-14; Ex. 21:13. Moisés designou três ao oriente do Jordão: Bezer, no território de Rúben; Ramote de Galaade, no território de Gade; e Golã, em Basã, no território de Manassés, Dt. 4: 41-13. Depois da conquista de Canaã, Josué e os chefes das tribos, designaram as outras três cidades a oeste do rio: Quedes, no território de Naftali; Siquém, em Efraim e Quiriate-Arba, que é em Hebrom, nas montanhas de Judá, Js. 20:7. Nenhuma parte da Palestina está longe demais de uma cidade de refúgio. O homicida refugiava-se na que lhe estava mais perto. Poderia ser alcançado e morto pelo vingador, mas se conseguisse chegar a uma cidade refúgio, era ali acolhido e tinha o direito a defesa. Se no julgamento ficasse provado que o homicídio foi voluntário, era entregue à morte. Se, porém, ficasse provado que matou em legítima defesa, ou por acidente, então a cidade lhe oferecia asilo. Se ele deixasse a cidade, antes do falecimento do sumo pontífice, o risco corria por sua conta. Depois da morte do sumo pontífice, era lhe facultado regressar à sua casa sob a proteção das autoridades, Nm. 35; Dt. 19; Js. 20. Como fosse uma questão Judicial entre o homem e Deus, a morte do sumo pontífice que representava o povo perante Deus, ficava encerrado o período da vida teocrática”.

Pode-se observar, que assim como a tomada de Canaã, o estabelecimento das “cidades de refúgio” obedecem uma estratégia divina, não para a conquista de terras, mas para se promover a justiça e a misericórdia na terra.

As Bases Teológicas para o Estabelecimento das Cidades de Refúgio

A origem das “cidades de refúgio” fundamenta-se na justiça e na misericórdia de Deus.

Em seu relacionamento com os homens, Deus é justo e reto. Strong (2002, p. 433) afirma que “Justiça e retidão sã a sanstidade transitiva de Deus, em virtude da qual seu tratamento para com as criaturas se conforma com a pureza de sua natureza, – a retidão demandando de todos os seres morais a conformidade com a perfeição de deus, e ajustiça visitando a inconformidade com aquela perfeição na perda judicial ou sofrimento”.

A Bíblia nos fala do caráter justo de Deus em várias passagens. Observemos algumas:

– “Longe de ti o fazeres tal coisa, matares o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de ti. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18.25)

Observe que Deus, em seu julgamento, não trata o justo como ímpio.

– “Porque o SENHOR é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face.” (Sl 11.7)

O amor pela justiça do ponto de vista de Deus é ação em favor dos retos, dos que observam a sua palavra.

– “Justiça e direito são o fundamento do teu trono; graça e verdade te precedem.” (Sl 89.14)

Este é um dos meus favoritos. O governo do Senhor está edificado e sustentado sobre a sua justiça.

– “Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa.” (Jr 23.6)

Os nomes bíblicos falam do caráter de seus portadores. Um dos nomes do Senhor retrata o seu caráter justo.

Quanto à misericórdia de Deus, fundamento também do estabelecimento das “cidades refúgio”, diz a Bíblia:

– “graça (misericórdia) e verdade te precedem.” (Sl 89.14b)

Que bela linguagem. Na chegada ou visitação de Deus a misericórdia vai adiante dele.

– “Porque o SENHOR é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração, a sua fidelidade.” (Sl 100.5)

A misericórdia dos homens pode falhar ou acabar, mas a de Deus é eterna.

– “O SENHOR é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras.” (Sl 145.9)

As ações de Deus são atos de misericórdia e graça.

– “As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim;” (Lm 3.22)

Aleluia. Toda honra e glória ao nome do Senhor, pois Ele nos sustenta e nos guarda por sua plural misericórdia.

Lições Práticas das Cidades de Refúgio

Algumas lições para a igreja cristã, podem ser extraídas da existência histórica, da funcionalidade e dos propósitos das “cidades de refúgio”:

O local estratégico das cidades, nos fala de um Deus que sempre busca facilitar o acesso à sua justiça e misericórdia. As cidades estavam localizadas em regiões diversas, para quando houvesse a necessidade, se buscasse a mais próxima. Somos facilitadores do acesso à justiça e misericórdia, ou somos coniventes com os vingadores de plantão?

Ninguém está livre de cometer erros graves de maneira involuntária. Sempre devemos agir em relação ao próximo, pensando que um dia poderemos ser protagonistas de situações indesejáveis e involuntárias.

As cidades não promoviam a impunidade, mas o direito pleno de defesa. Diante da lei, todos são inocentes até que se prove o contrário. As lideranças das igrejas, e todas as lideranças em geral, precisam saber ouvir e julgar, antes de aplicar qualquer penalidade aos infratores. Muitos já foram e estão sendo punidos e disciplinados injustamente por não serem ouvidos ou, sendo ouvidos, acabam julgados com parcialidade.

Aprendemos também que Deus deseja que tratemos os que erram, como Ele mesmo os trata, com justiça e misericórdia (Mt 9.13).

Fica aqui, uma pergunta para a nossa reflexão: Nossas comunidades cristãs estão sendo “cidades de refúgio” em pleno século XXI?

 (Israel Belo de Azevedo)

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